segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O não acompanhamento escolar

O não acompanhamento familiar e sua relação com o comportamento e aprendizagem dos alunos

RESUMOA aprendizagem e o comportamento dos alunos em muito são influenciados pela educação familiar. O não acompanhamento familiar ocasiona nos alunos um sentimento de rejeição que se reflete no seu desempenho escolar. Esta pesquisa teve como foco duas turmas de ensino fundamental II de uma escola estadual da região metropolitana do Recife que apresentam problemas de comportamento e déficit de aprendizagem. A escolha dessas turmas (6º e 7º ano – primeiras séries do fundamental II) se deu por elas serem consideradas, por unanimidade entre os professores das referidas classes, como as mais “difíceis” nos dois fatores que o tema relaciona. Esta pesquisa teve como objetivo investigar a relação do não acompanhamento familiar com a conduta desfavorável que a maioria dos alunos apresenta e, ainda, com a falta de interesse dos mesmos. Para isso, entrevistas e observações foram utilizadas e PELT, TIBA e WEISS foram alguns dos autores que fundamentaram o estudo e subsidiaram a discussão do caso. Os resultados da pesquisa apontam para a máxima importância do acompanhamento familiar e do grande valor do incentivo, da motivação e do amor que os alunos precisam para interessar-se pelo seu processo de aprendizagem escolar e negociar melhores formas de comportamento.
Palavras-chave: acompanhamento; relações; família.
1 INTRODUÇÃO
Dar uma boa educação aos filhos é um grande desafio. Desde a sua concepção, a criança precisa de cuidado, amor e dedicação. A família é o alicerce para que a formação das crianças e adolescentes seja construída de maneira sólida, isto é, de forma que eles consigam conviver segundo os parâmetros da sociedade (de cultura, regras, respeito, etc). Pórem, o que percebemos com frequência hoje é o desgaste da instância familiar, começando pela falta de planejamento na construção das famílias, passando pelos maus-tratos com as crianças, mulheres e idosos, culminado em prisões, mortes, traumas, um desajuste que mexe com o psicológico de todos os envolvidos que, em contrapartida, tendem a repassar esses momentos mal vividos às pessoas que posteriormente venham fazer parte da sua vida.
A educação doméstica parece não ser mais primordial. Os pais ou responsáveis estão deixando cada vez mais nas mãos da escola também esse papel, talvez por displicência ou, quem sabe, por despreparo. O comportamento e o rendimento escolar desses indivíduos sem o acompanhamento sistemático de algum responsável que demonstre interesse por seus estudos e vivência na escola como um todo, pode ficar comprometido. Pelt (2006) tratando sobre “Ajustes na família” cita fatores que interferem numa saudável estrutura familiar: educação deficiente dos pais, que, consequentemente, oferecem um também deficiente exemplo, e, fechando esse ciclo deficitário, os filhos têm um ideal deficiente de pais.
Trazendo para a instituição escolar, esse desajuste, que muitas vezes culmina na falta de acompanhamento familiar na escola, que, muitas vezes ainda vem junto com o desinteresse em casa pelas produções escolares dos filhos e pelo seu cotidiano escolar, pode ser um dos fatores que influenciam no baixo desempenho e no mau comportamento dos alunos. O desenvolvimento físico, emocional, escolar, etc., deve ser acompanhado pela família, à sua forma e possibilidade, independente de ser composta pela tradicional formação “pai, mãe e filhos” ou não. A estrutura familiar vem mudando e essa composição tradicional não é a realidade de todos os lares. Sobre isso, Pelt discorre:
(...) os tempos mudaram, mas não as relações humanas que constituem as raízes da formação do caráter. Os filhos ainda precisam dos pais, porque as relações afetivas que mantêm com eles desde o nascimento permitem que adquiram padrões que os tornarão seres normais. As crianças precisam de direção, disciplina, apoio e ânimo para crescer, amadurecer e tornar-se pessoas independentes da família, adultos autônomos. (2006, p. 8)
Cabe à escola saber para que tipo de público está direcionando o seu trabalho, ou seja, é essencial o conhecimento de como está organizada essa família contemporânea e como e até onde essa organização influencia a criança e o adolescente no seu desenvolvimento psicossocial. “Por outro lado, a família deve compreender a missão e as propostas da escola e conhecer formas de contribuir com ela”, discorre Amanda Polato, autora da matéria “Sem culpar o outro” da revista Nova Escola (set 2009).
Acerca do assunto família/escola, o interesse desse artigo é apresentar um estudo baseado em depoimentos colhidos por meio de entrevista de alguns alunos integrantes de turmas consideradas “problema” de uma escola pública do Recife. As falas dos alunos com relação ao acompanhamento (eficaz ou defasado) de seus responsáveis no que diz respeito aos seus estudos e relatos de professores das turmas em questão, serviram de base para o desenvolvimento da pesquisa e construção deste trabalho. Confrontando os depoimentos desses sujeitos com as bibliografias de áreas psicológica, pedagógica e psicopedagógica, tivemos o suporte para fundamentar nosso pensamento com relação ao tema/problemática.
Neste trabalho, analisamos as situações apresentadas e investigamos a qualidade do contato aluno/responsável e no que isso influencia na educação, interesse e desempenho escolar dos alunos.
2 REFERENCIAL TEÓRICO2.1 ATUAÇÃO DA FAMÍLIA X ALTA PERFORMANCE DA CONVIVÊNCIA FAMILIARO nascimento de um bebê implica no nascimento de uma família, pois é a presença desse novo ser no seio do casal que dará início à formação da família, porque nasce, além do filho, uma mãe e um pai. Pelo menos é assim que deveria acontecer, é o que deveria ser natural a todos. Família deve ser a base que fortalece cada um dos seus integrantes. A união familiar deve favorecer a realização pessoal de cada membro e representar um forte sentimento de segurança. Relacionamento, em seus diversos graus, é difícil de ser conduzido de forma saudável, mas uma comunicação adequada, a escuta e compreensão são fatores que podem auxiliar no convívio.
A alta performance, ou seja, o alto desempenho de uma família, depende do tratamento que uns tem com os outros, o que envolve carinho, respeito, atenção e, até mesmo, imposição de limites, que configura-se como cuidado. Içami Tiba diz que a família, para ter uma excelente performance, deve agir como uma equipe, isto é, todos trabalhando em prol do coletivo, do bem-estar do grupo. O autor ainda traz alguns tópicos que podem auxiliar as famílias a atuarem de forma satisfatória, são eles:
“(...) procure a superação das suas próprias dificuldades; independente de qualquer explicação, procure a correção do erro; assimile as mudanças que sejam progressivas; pratique a cidadania familiar para que todos sejam cidadãos éticos; todos se unam para que a equipe melhore sempre; exija do elemento ajudado a correção dos erros e seus resultados; não coloque uma vitória como ápice de uma conquista; não sinta uma derrota como eterna; os deveres sejam cumpridos e os méritos reconhecidos; o melhor para a equipe seja o melhor para o bairro e para o planeta. (2009, p. 25)
Falando de família, devemos estar atentos para os novos “arranjos familiares” que fazem parte da nossa realidade. Tiba (2009) discorre sobre alguns tipos de organização familiar, trazendo a família nuclear, aquela composta por pai, mãe e filhos; a família expandida, em que entram na sua composição outros parentes (avós, tios, primos, etc); e a família monoparental, formada por um dos pais e os filhos, isto é, a família chefiada apenas pelo pai ou pela mãe. Este tipo de organização familiar configura-se, geralmente, em caso de separação do casal.
Com essas definições, confirmamos que não há um padrão para a formação dessa instituição chamada família. Várias são suas formas de organização que, muitas vezes, não dependem da escolha de seus integrantes. Nenhuma classe social está livre dessas formas de composição das famílias. Os reguladores dessa dinâmica podem ser: o amor, a ascensão social, dependência, independência, dinheiro, entre outros.
Ainda sobre a organização estrutural da família, há os casos em que, os pais separados unem-se com outro (a) companheiro (a) e essa união conjugal também gera a união dos filhos de cada cônjuge. Um novo desenho familiar, uma nova forma de se organizar, uma nova forma de educar, uma nova maneira de se entender. Padrasto ou madrasta dividindo espaço com enteados e filhos biológicos, uma equipe complexa que precisará, mais do que nunca, estabelecer critérios para manter a convivência familiar da melhor maneira possível.
A antropóloga Clarice Ehlers Peixoto (Uerj), citada por Amanda Polato (2009), defende essa reestruturação da família, dizendo que essas “outras possibilidades, não levam, necessariamente, à desorganização.” Ainda sobre o assunto, a autora em sua matéria discorre que o discurso de profissionais que lidam de uma forma ou de outra com os problemas sociais e psicológicos de crianças e adolescente, estigmatizam, muitas vezes, a desagregação familiar como foco da situação, mas que, na realidade, isso não pode ser considerado regra. As crianças e jovens realmente se abalam com uma “desequilibração” familiar, mas isso não indica que, necessariamente, o jovem que passe por tal situação apresente problemas de comportamento ou déficit no desempenho escolar.
Existe também a desorganização familiar, que se configura quando um dos cônjuges estabelece relacionamentos extraconjugais, gerando, muitas vezes, “filhos extras”, motivando conflitos para ambos os lados da história, desestruturando um “padrão” ora existente. Sobre esse “desarranjo”, Amanda Polatto (2009) nos esclarece que “é um engano pensar que isso é novidade no Brasil: desde a colonização há filhos fora do matrimônio, uniões esporádicas e concubinatos. A diferença é que hoje muito disso é legitimado social e juridicamente” (Nova Escola, set 2009).
A criança e o adolescente, em geral, passa mais tempo na escola que em casa, consequentemente, convive mais com os professores que com os pais, que trabalham o dia inteiro e só à noite estabelecem (quando estabelecem) algum tipo de contato com os filhos. Esse talvez seja um fator que contribua para que os pais transfiram a “carga” da educação como um todo à instituição escolar. Numa reportagem do jornal da Band, do dia 03 de novembro de 2009, sobre o aumento das mensalidades de escolas particulares, uma mãe, em entrevista, se queixa de colégios que, segundo ela, afirmam ser normal a incidência de palavrões em seus domínios. O argumento dela para fundamentar sua reclamação é que, se ela (representando todos os pais com filhos em escola particular) está pagando caro pelo “produto” deve exigir “o melhor”. “Deve ter alguém para reprimir isso”, palavras da entrevistada. E onde estão esses pais que não educam seus filhos para que palavrões não sejam pronunciados na escola? As palavras dessa mãe confirmam como os pais transferem para a escola o dever da educação doméstica (bons costumes, valores, respeito), como se fosse obrigação da instituição. É claro que a escola vai tratar sobre isso, mas deveria reforçar o que vem de casa e não ser encarregada de “criar” os alunos. Cadê o acompanhamento desses pais? Onde está o interesse pela formação de seus filhos? Na realidade da escola pública, os frequentadores são bem diferentes. O público é composto por pessoas de poucas condições financeiras, poucas posses, mas os problemas são os mesmos, com suas particularidades, é claro. É desse tipo de comportamento de pais ou responsáveis que começam a desencadear inúmeros problemas enfrentados por professores e alunos na escola. O público da escola particular vem com o discurso do “estou pagando caro pelo produto e exijo o melhor”, enquanto que os de escola pública discursam que “é do governo, então posso fazer o que quero”. Pensamentos que levam a educação cada vez mais para o fundo do poço. E onde estão os responsáveis por essas crianças e jovens? Muitas vezes nem procuram quebrar esses ditos, e até mesmo os legitimam, entrando assim, novamente, a escola com mais uma responsabilidade, a de “desestigmatizar” esses paradigmas formados por comentaristas tão desrespeitosos.
Tempo, configurando dedicação; limites, configurando cuidado; a escuta configurando uma comunicação adequada; união, configurando amor, são alguns dos processos que as famílias precisam para tentar uma atuação satisfatória que beneficiará a todos os seus integrantes, traduzindo-se em bem-estar pessoal e social.
2.2 ACOMPANHAMENTO FAMILIAR E APRENDIZAGEMO acompanhamento familiar é tema sempre debatido e difícil de resolver. Um levantamento feito pelo Inep, através de cruzamento das informações obtidas pelo questionário socioeconômico do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), em 2003, com as notas dos estudantes que fizeram a prova, constata que o acompanhamento da família eleva o desempenho escolar do aluno.
A Folha on-line divulgou um artigo com o título: “Escola Pública boa deve começar em casa”, que já em seu primeiro parágrafo traz o seguinte:
A receita para uma boa escola pública é simples e dá resultados. Seus principais ingredientes são a participação dos pais, o interesse da família pela vida escolar do aluno, o estímulo à leitura e o hábito de fazer e corrigir o dever de casa. Junta-se a isso a vontade do diretor em colocar em prática essas lições e, como resultado, há uma melhoria no desempenho. (FOLHA DE S. PAULO, 01/08/2004)
Tal texto traz tudo o que buscamos, nossa utopia da educação perfeita. Quem vive diretamente ligado à educação, ao sistema educacional, percebe nitidamente que ainda há muito que ser feito para um efetivo trabalho de formação (educação).
A pesquisa do Inep, citada anteriormente, mostra a importância do acompanhamento familiar, como isso influencia positivamente no desempenho escolar dos estudantes. Mas, a realidade que nos cerca é muito diferente. Piletti relata sobre a situação da família na sociedade brasileira: “Nossa sociedade, caracterizada por situações de injustiça e desigualdade, cria famílias que lutam com mil e uma dificuldades para sobreviver. Esses problemas atingem as crianças, que enfrentam inúmeras dificuldades para aprender” (2009, p.151).
Esse discurso do autor nos faz refletir o tipo de família que têm nossos alunos, as dificuldades que encontram para mantê-los na escola e a própria dificuldade do aluno em permanecer nela, tendo em vista a falta de perspectiva de melhoria de vida, realidade de muitos. Alguns vêem sim, na escola, a oportunidade de mudança de vida, mas muitas vezes é tolhido em seu sonho porque “a forma como é tratado na escola leva-o a desistir, pois muitas vezes é reprovado, julgado incapaz, e mesmo expulso pela escola que não foi feita para ele” (PILETTI, 2009, p. 151).
O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, sobre essa ausência de perspectiva, discorre:
O problema é que temos um aluno insatisfeito socialmente e economicamente que vai para a escola com a perspectiva inicial de que, com o estudo, vai conseguir melhorar sua vida. Mas chega lá e encontra uma escola que não está preparada para recebê-lo e isso termina fazendo com que ele se desiluda ainda mais. (IHU On-line, 08/07/2009)
Contudo, podemos perceber que vários fatores levam ao caos que vivemos hoje em nossas escolas. O comportamento inoportuno, a falta de interesse, os problemas de aprendizagem são frutos de aspectos negativos, que vai desde a concepção de educação que a criança tem em casa até o sistema educacional vigente.
É na família que são encontrados os primeiros exemplos, sejam bons ou ruins. Rose Neubauer, diretora-presidente do Instituto Protagonistés e coordenadora da pesquisa sobre a participação dos pais e sua relação com o desempenho escolar dos alunos, coloca (no artigo “Escola pública boa começa em casa”) que “mesmo pais com pouca escolaridade podem ajudar os filhos a ter boas notas se demonstrarem interesse pela vida escolar da criança e participarem das atividades do colégio”. Essa preocupação com o cotidiano escolar tem impacto muito positivo. De acordo com a pesquisa e com o discurso de Neubauer, Francisco Poli, secretário do sindicato dos diretores em SP, diz, ainda no referido artigo: “a escola precisa trabalhar não só o aluno, mas também com os pais, trazê-los para o ambiente escolar”. Dessa forma, Poli destaca também a importância de escola estar pronta para oferecer o melhor ao seu aluno, dizendo: “A escola não substitui a família, mas pode ajudar se os mais carentes tiverem aulas de inglês, informática ou passarem mais tempo nela”.
Piletti, tratando sobre família, diz que o tipo de educação familiar vivenciada é um fator que afeta principalmente na aprendizagem. Com relação a isso, ele traz o seguinte: “A educação familiar adequada é feita com amor, paciência e coerência, pois desenvolve nos filhos a autoconfiança e espontaneidade, que favorecem a disposição para aprender” (2009, p. 152). Corroborando com esse pensamento, destacamos aqui algumas palavras de Cury:“o ser humano não raciocina adequadamente quando está irritado, nervoso, amedrontado, decepcionado, deprimido”(2007, p. 79), ou seja, a criança ou o jovem “desorganizado” em sua família, em sua vida, apresenta um comportamento que não condiz com o que realmente é. Age, muitas vezes, refletindo o conflito social vivenciado, alterando seu comportamento e prejudicando seu aprendizado.
Compreender todos os alunos é tarefa difícil para a instituição escolar, mas, se ela funcionar como zona de conforto, será um grande passo. Trabalhar a relação alunos/escola/família parece ser um dever eterno, mas todas as possibilidades devem ser esgotadas para partir a outro plano. As escolas precisam trabalhar buscando estreitar os laços da sua relação com as famílias, focando em melhorar a qualidade do tempo que os alunos passam na escola, em aprimorar o relacionamento aluno-responsável e deixar claro que ambas as instâncias (família e escola) têm um objetivo em comum: a educação de qualidade desses sujeitos.
2.3 A PSICOPEDAGOGIA INTERVINDO JUNTO COM A FAMÍLIAIniciamos esse tópico esclarecendo a que se interessa a psicopedagogia, a partir da definição de Souza, que a traz como:
uma área interessada em investigar a relação da criança com o conhecimento. Esta relação pode configurar-se como problemática, em razão de aspectos pedagógicos e/ ou psicológicos. Dentre esses últimos, incluem-se aqueles associados a aspectos afetivos e/ou cognitivos. (2008, p. 113)
Este conceito nos traz questão da dificuldade de aprendizagem que será investigada por meio dos aspectos pedagógicos e, esmiuçando os psicológicos, também citados na definição, encontramos o afetivo e o cognitivo. O aspecto afetivo que será analisado nessa situação, para compor o diagnóstico, precisará da colaboração da família. Não importando a linha que o psicopedagogo siga, a entrevista anamnésica com a família da criança ou jovem que esteja apresentando dificuldade no aprendizado é primordial.
A investigação que tratamos aqui se dá numa “pesquisa do que não vai bem com o sujeito em relação a uma conduta esperada” (WEISS, 2003). Um diagnóstico realizado com sucesso permite o planejamento de uma intervenção própria para cada caso. Para diagnosticar o tipo de desvio a que vem se encaminhando o indivíduo que demonstra sintomas de problemas de aprendizagem, Weiss (2003), cita dois eixos que servirão para análise:
a) O eixo horizontal, em que se explora o presente, buscando as causas temporais dos sintomas. A autora destaca que, para cumprir esse objetivo, utiliza entrevistas com o paciente, com toda a família, com a equipe da escola, outros profissionais, sessões lúdicas e outros testes.
b) O eixo vertical, que visa investigar a construção da história do sujeito. Nesse caso as entrevistas com o paciente, família, escola e outros profissionais também são de grande relevância. É na investigação desse eixo que se analisarão:
 “diferentes ‘histórias’ que se integram na grande história do paciente: história escolar, história clínica, história das primeiras aprendizagens, história da família nuclear (pais e filhos), história dos ancestrais (parentes paternais e maternais)”. (WEISS, 2003, p. 30)
Percebemos então que no diagnóstico psicopedagógico o sujeito nunca será analisado isoladamente. Sua história de vida, relatada por vários ângulos, fundamentam os possíveis sintomas a serem tratados.
Weiss (2003) discorre que, em meio ao diagnóstico pode notar que o problema de aprendizagem relatado pela queixa da escola e família não faz parte de uma dificuldade própria dos alunos, mas sim das instâncias que sinalizaram o problema (escola e/ou família), que procuram patologizar a situação, não se importando em avaliar suas próprias práticas, essas sim que estão funcionando como obstáculo, fazendo com que o indivíduo em questão apresente-se “problemático”. A escola pode estar apresentando um método não muito eficaz; a família pode estar querendo mascarar uma situação interna, sentindo até mesmo que a melhora dos sintomas do sujeito ainda na fase de diagnóstico é uma ameaça, interrompendo assim esse processo por necessitar, para a manutenção da situação existente, que a explicação para o problema do indivíduo seja patológica.
Pain, tratando sobre análise dos sintomas, nos traz um fato muito importante, discorrendo o seguinte: “a maioria das crianças conserva o carinho dos pais gratificando-os através de sua aprendizagem, mas há casos em que a única maneira de contar com esse carinho é precisamente não aprender” (1985). Esse relato da autora nos remete a pensar naquela criança que sente a necessidade de chamar atenção a todo custo.
Nota-se, com essas narrações, a importância da família na saúde mental da criança e do jovem e no diagnóstico e tratamento psicopedagógico. Não adianta o psicopedagogo fazer um trabalho excelente e não contar com a colaboração da família para que as melhoras avancem.
3 METODOLOGIA
Esta pesquisa foi baseada na abordagem qualitativa, ou seja, sem a preocupação com estatísticas, considerando, assim, como Silva e Menezes, o “vínculo indissociável entre o mundo subjetivo e a subjetividade do sujeito, que não pode ser traduzido em números” (2001, p. 20).
Para contemplarmos os objetivos propostos, utilizamos dois procedimentos metodológicos: entrevistas semiestruturadas e observações em campo. Professores e alguns alunos de uma escola estadual foram entrevistados. O roteiro foi elaborado a partir da compreensão de que entrevista semiestruturada seria o melhor caminho para buscar as informações, pois, conforme Silva e Menezes (2001) essa forma não-estruturada de entrevista não exige um roteiro rígido, o que permite que algumas questões sejam exploradas de maneira ampla.
Os primeiros entrevistados foram os professores, sendo questionados sobre o comportamento e aprendizagem dos seus alunos e sobre como a família pode intervir em situações que dizem respeito ao tema desse estudo. Os professores também foram solicitados a listar (das duas turmas em questão – 6º e 7º ano) alguns alunos que apresentam comportamento e aprendizagem desejáveis e os que têm comportamento e aprendizagem inadequados (indisciplina, desorganização, relação com os colegas, etc). Os discentes em comum nas lista dos professores foram os entrevistados: 20 de cada turma, totalizando 40 alunos (20 considerados “satisfatórios” nos fatores discutidos – na turma de 6º ano - e 20 vistos como “insatisfatórios” – na outra turma em questão). Dessa forma, a amostra utilizada foi a não-probalística, do tipo intencional, em que, segundo Silva e Menezes (2001), representam um “bom julgamento” do universo a ser pesquisado. E esse julgamento considerado apropriado se deve ao fato de terem sidos entrevistados os alunos citados por todos os professores.
Observações também foram realizadas na pesquisa: no momento de entrada da escola, observando se chegavam sozinhos ou acompanhados, ou quem era sua companhia e a relação entre os alunos e esse “monitor”; os alunos também foram observados em sala de aula e nos intervalos.  A observação de todas as situações foi feita de forma sistemática, que, conforme Silva e Menezes, “realiza-se em condições controladas para responder aos propósitos preestabelecidos” (2001, p. 33). Nesse caso, as “condições controladas” foram os horários em que as observações foram realizadas e os “propósitos preestabelecidos” foram os olhares sobre os alunos, focando no tema/problemática desse estudo.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES4.1 O MOMENTO DE ESCUTA E OBSERVAÇÃO
A abordagem para a entrevista acontecia no intervalo das aulas, ocasião em que não atrapalharia o curso normal do dia letivo e, horário este em que os alunos se reuniam nos seus “grupinhos”. Quando um deles era chamado para a entrevista (momento em que era explicado todo o contexto da pesquisa), os outros queriam acompanhar (íamos a salas de aulas vazias ou à biblioteca da escola). Uns sentiam-se à vontade para falar na frente dos colegas, alguns não, então os outros eram solicitados a esperar, deixando no local apenas o entrevistado da vez. 
Alguns resistiram um pouco em responder. Temiam que as respostas fossem prejudicá-los de alguma forma, que fossem divulgadas ou até mesmo que chegassem aos ouvidos de seus responsáveis. Os discentes que têm uma família “segura” (sem necessariamente ser nuclear), que acompanha, incentiva, enfim, participa da educação escolar e doméstica do aluno, não apresentaram resistência em responder. Os resistentes foram aqueles que, em sua fala, demonstraram não receber o suporte necessário de sua família, tanto no acompanhamento escolar, quanto em seu domicílio.
Em uma das minhas observações presenciei um fato desagradável. Um garoto, dos que não apresentava bom desempenho escolar e comportava-se de forma insatisfatória, recebeu a “visita” de sua mãe e sua avó, que chegaram gritando na porta sala em que o menino estava (que já chegou desconfiado à escola). Elas protestavam contra o aluno, pois o valor que recebiam todos os meses de um programa do governo federal, havia sido cancelado, pois o menino não apresentava a frequência escolar necessária para que continuasse no programa. O conflito aconteceu ali, na frente de todos os seus colegas e de quem mais quisesse ouvir. O garoto aparentou sentir vergonha da situação, sentou, baixou a cabeça e não reagiu a mais nada durante todo o dia (o evento aconteceu no início do dia, na primeira aula). Essa mãe, segundo informações dos professores e da coordenação, nunca aparecia na escola. Alguns professores disseram nem saber do potencial do referido aluno, pois ele nada produzia nas aulas. Já alguns relataram que o garoto tinha potencial, só que não apresentava desejo em desenvolver sua capacidade. Será que essa mãe e essa avó usavam o dinheiro que recebiam do programa para realmente garantir o que ele propõe (direito à alimentação, acesso à educação e à saúde)? Se sim, por que nunca compareciam à escola para acompanhar o desenvolvimento do menino? A revolta delas não parecia estar relacionada em como fariam para continuar oferecendo ao garoto as condições mínimas necessárias ao seu bem-estar, e sim tinha a conotação de que essa bolsa era usada para outros fins, e o garoto parecia não ser a prioridade para o uso de um dinheiro que deveria, de alguma forma, lhe beneficiar. 
Ouvindo as respostas dos alunos durante as entrevistas, percebi que, se as suas famílias passassem por uma anamnese psicopedagógica, fatos degradantes das vidas dessas pessoas seriam descobertos, episódios esses que de certa forma reflete-se na vida desses meninos e meninas, uns com maior intensidade, outros, menos.
Nem todos os alunos apresentavam uma família tradicional, ou seja, composta por pai e mãe. A “variabilidade” familiar na casa desses garotos e garotas é muito grande: tem padrastos, madrastas, tios, primos, avós. Uns, segundo os alunos, eram permanentes, outros estavam de passagem por estar convivendo, no momento, com alguma dificuldade financeira. Alguns já não têm mãe, outros, mesmo a tendo, não são criados por elas. Um fato em comum, observado na maioria dos depoimentos, é a insatisfação de quem tem a mãe, mas não é criado por ela. Eles tentavam demonstrar superação nesse fato, mas seu jeito, olhar e forma de responder denunciavam seus sentimentos. Alguns vivem com pessoas que não fazem parte de sua família “de sangue”, e isso influi de duas formas no que diz respeito ao aprendizado escolar: uns, que vivem nessa condição, procuram se esforçar para fazer aquela pessoa que se importa com ele se orgulhe e não se arrependa de ter se disposto à criá-lo; outros exalam revolta,  e mesmo tendo grande capacidade de entendimento nas aulas, facilidade de aprender, se prestam a nada produzirem em aula e a comportar-se de forma indesejada, fazendo com que a família sempre seja chamada a comparecer na escola para tentar resolver problemas. Nos casos reincidentes, aconteceu (e acontece) de a família que normalmente não participa do cotidiano desse aluno, apresentar-se na escola para conversar com os professores e coordenação para juntos tentarem encontrar uma solução.
Pillete (2009), tratando sobre o ambiente familiar, nos traz que as crianças amadas sentem-se mais seguras, confiantes, participam das aulas, são interessadas e apresentam entusiasmo nas atividades; quanto à convivência com os colegas e profissionais da escola, estes alunos que vivem em ambientes afetuosos são respeitadores. Por outro lado, as crianças que vivem em ambientes conturbados, com responsáveis agressivos, hostis, sem amor, geralmente não têm confiança em si mesmos, não colaboram nos trabalhos em equipe e apresentam comportamento agressivo, talvez como forma de defender-se dessa falta de amor.  Porém, quanto a estes fatores, Pillete nos alerta sobre as variações das relações familiares e até mesmo da personalidade de cada um quando nos diz: “convém considerar que as situações familiares variam muito e que o comportamento humano é complexo e cada um estabelece os próprios padrões de conduta” (2009, p. 280).
Ainda na entrevista, quando perguntados sobre o acompanhamento que seus responsáveis tinham ou não com relação aos seus estudos, também se percebe variações no que diz respeito a quem acompanha o desenvolvimento desse aluno: pai, mãe, avó, prima, primo e irmão, foram as pessoas citadas. As formas de acompanhamento também variam. Duas formas foram constatadas: o acompanhamento sistemático dos estudos (demonstrando interesse e auxiliando nas tarefas escolares) e do comportamento do aluno (frequentando a escola e conversando espontaneamente com os professores) e o acompanhamento “solto”, em que as famílias só aparecem na escola quando são chamados pela direção por causa de problemas de comportamento e/ou aprendizagem e, com relação ao desempenho escolar, se restringem a perguntar se há trabalhos a fazer em casa e qual será o período de provas. Estes últimos ainda são coagidos a tirar boas notas sob pena de perder os aparelhos eletrônicos (celular, mp4) que têm ou receber castigos físicos.
Pelos depoimentos dos alunos, pode-ser perceber que alguns responsáveis estão deixando de dar o apoio necessário, mesmo aqueles que apresentam um desempenho escolar satisfatório relataram ter atenção de outras pessoas, que não convivem sob o mesmo teto. De certa forma, mesmo recebendo atenção de outras pessoas, que demonstram interesse no avanço escolar e pessoal desse aluno, ele externa o sentimento de rejeição. A resposta de um dos alunos retrata bem esta questão: “minha mãe só vem de vez em quando na escola, quando ela lembra... começo de mês, quando ela faz feira perto da escola (...) ela acha que eu não quero nada com o estudo, então não me ensina, não ajuda, já que acha que não aprendo”. Este aluno tem um desempenho escolar satisfatório, mas, apesar de sua realidade, tem o seguinte ponto de vista: “sem acompanhamento, não existe aluno certo”. Diante da contradição entre sua realidade e seu pensamento sobre o acompanhamento escolar, uma pergunta foi criada, fugindo do roteiro: “Se você não tem acompanhamento, por que se interessa pelos estudos?” A resposta: “Vontade de estudar pra ser alguém na vida.”.
A ocasião da entrevistas serviu como momento de desabafo para alguns e, para todos, um momento de reflexão sobre o que acontece na sua vida, com sua família, com seu jeito de pensar, sobre sua forma de encarar os estudos e até pensar um pouco em quem lhe oferece atenção para valorizar, repensar no seu valor e avaliar seu amor próprio para enfrentar a falta de alguém que acompanhe e se interesse pelo seu desenvolvimento.
4.2 A FAMÍLIA E A IMPORTÂNCIA DO INCENTIVOIncentivo, de acordo com o dicionário Michaelis, significa “Que incentiva, que excita. sm: Aquilo que estimula.” Esta palavra se repetiu nas respostas, em todas as entrevista. Todos, até quem não tem um acompanhamento familiar satisfatório, discorreram sobre sua importância. Eles trataram, em seus depoimentos, o incentivo como forma de aumentar a sua autoestima e de demonstração de cuidado pelos seus responsáveis.
O que se pode perceber é que esses jovens, na fase de pré-adolescência/ adolescência (idades que variam de 12 a 14 anos), estão passando por um período de tantas transformações, no corpo e na mente, que precisam, mais do que nunca, de um suporte para ajudá-los a construir sua identidade, pois, como diz Pelt (2006), nessa fase “o adolescente ainda não pode ter a liberdade de uma vida adulta, mas também já não tem os privilégios de ser criança” (p. 85). Em seus depoimentos os alunos demonstraram que quando seus responsáveis se interessam pelo seu cotidiano escolar, os auxiliam nas atividades, estudam com eles e procuram os professores na escola para conversar sobre a aprendizagem, eles se sentem mais seguros e com isso avançam muito mais.
Stoeber e De Felice discorrem que “O processo de aprendizagem está intimamente ligado ao processo de estar no mundo, com suas dificuldades, obstáculos e ‘confusões vivenciais’.”, ou seja, é natural e é influenciado pelas várias situações que o sujeito vivencia (boas ou ruins).
É na família que se estabelecem as primeiras aprendizagens, portanto os exemplos e as práticas utilizadas na educação doméstica influenciam sobremaneira na construção do caráter e personalidade dos aprendentes, já nos diz Pilleti (2009, p.274), sobre o assunto, que “o que é ensinado inconscientemente, sem a intenção de ensinar, normalmente permanece por mais tempo”. Assim como esses jovens, a família também “passa por fases de desenvolvimento e mudanças que levam à necessidade de uma constante reorganização”, discorreu Márcia Pego, em seu artigo intitulado “Intervenção psicopedagógica e família”.
Nas entrevistas os alunos relataram sobre a falta de tempo dos seus responsáveis em comparecer à escola, em auxiliá-los em casa dos deveres escolares porque trabalham, um dos fatores que os fazem não acompanhar o desenvolvimento desses estudantes. Içami Tiba, em depoimento para um informe publicitário da Revista Veja (2009), enfatizando a necessidade da presença dos responsáveis na educação, diz que “ Os pais que acompanham com cuidado seus filhos na escola, melhoram em 80% o rendimento dos alunos. Mas eles não participam se escondendo atrás da desculpado tempo.” E ainda destaca que “o exercício da cidadania e educação deve acontecer antes de se sair de casa”. O que o autor e psiquiatra alerta com essas palavras é sobre a importância da relação educação/família.
Esta pesquisa apontou que todos os alunos querem sentir-se estimulados, precisam sentir-se instigados a querer, buscar, a ter esperança, a usar de sua capacidade para crescer, mudar sua realidade, a pensar num futuro promissor para eles e suas famílias. Essa falta de incentivo está incomodando muitos desses garotos e garotas que, em troca, estão reafirmando a falta de credibilidade que a família deposita neles, desacreditando na estrutura familiar e, com isso, produzindo a cada dia a falta de esperança de dias melhores. 
Incentivo, amor, esperança, cuidado, interesse foram palavras citadas pelos alunos nas entrevistas. Escola e família devem trabalhar em conjunto para que eles sintam esses fatores dos dois lados. A família deve começar, em casa, e a escola deve continuar, assim, nossos jovens construirão os valores fundamentais para o ser humano, para que possam tornar-se adultos promissores, com consciência social. Um Informe publicitário da revista Veja destaca que “o jovem, para que tenha uma educação completa, de fato, precisa não apenas adquirir o conhecimento, mas também valores que vão transformá-los num cidadão do futuro”. As famílias precisam perceber a importância que têm na formação desses meninos e meninas e começar o quanto antes a atuar com uma postura de atenção, motivação, credibilidade e, acima de tudo, amor.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Educar não é tarefa fácil, seja em casa ou na escola. Bom seria se ao nascer a criança viesse comum manual instrutivo ou que os cursos oferecidos para gestantes desse a receita completa de como cuidar e educar os filhos para a vida, respeitando as particularidades de cada fase.
Acompanhar todo o desenvolvimento de um filho, cuidar dos detalhes que cada fase determina é um dever que exige desejo, amor, planejamento, suporte financeiro e psicológico, entre outros fatores. O que acontece na realidade são crianças sendo concebidas sem o mínimo desses pré-requisitos, o que dá início a uma sucessão de erros e desconforto para quem vivencia a situação. Pelt (2006), tratando sobre a natureza do nosso corpo com relação à concepção de um bebê, diz que na maioria dos casos, o corpo apresenta todos os requisitos biológicos para a geração de um bebê, não havendo uma correspondência entre o tempo em que ele, teoricamente, está preparado para isso e o amadurecimento da mente, surgindo, dessa forma, pais despreparados que, muitas vezes ainda não entendem a si mesmos, errando, em alguns casos, involuntariamente, por não compreenderem o sentimento de paternidade e maternidade, por não entenderem o comportamento das crianças, por não entenderem a importância que têm sobre o filho, principalmente na construção do caráter, comunicação e na disciplina.
Os problemas vivenciados no seio familiar refletem-se sobremaneira no comportamento das crianças ou adolescentes, tornando-os agressivos ou muito introspectivos; sem iniciativa ou apresentando distúrbios de personalidade.
Com os relatos dos estudantes entrevistados, percebe-se que viver com os familiares não garante que a atenção seja garantida. A família nuclear não oferece necessariamente êxito na educação, assim como a família chamada “desestruturada” não é a causa-mestre dos problemas que os alunos possam apresentar.  Não é regra dizer que crianças ou adolescentes com mau desempenho escolar estejam com problemas familiares que dizem respeito a sua composição.  O estigma de que só os alunos com famílias constituídas de pai e mãe e filhos é que é a receita para o sucesso, deve ser desconstruída porque muito mais que a composição da família, a consciência de ser um “cuidador”, a responsabilidade que tem a função e amor pelo ser a cuidado é o que mais importa para que a educação se dê de forma construtiva e assim, ser considerada de sucesso.
A pesquisa sinalizou que o caminho para investigar o que há de errado com esse aluno é verificar que tipo de apoio ele tem em casa, se alguém acompanha seu desenvolvimento escolar – independente de quem seja – como é a relação do “cuidador” com esse adolescente e ter uma conversa franca com esse responsável para poder chegar a um consenso a respeito dos problemas e pensar nas possibilidades de soluções.
O não acompanhamento familiar na escola, a falta de carinho e atenção em casa, as dificuldades enfrentadas pelos pais, que faz com que os jovens percam a esperança de ter melhor qualidade de vida, são fatores os levam a desacreditar de suas capacidades e a não pensar em sucesso. Por mais que passem por situações difíceis no seu lar, o que querem mesmo é atenção, incentivo, limites, segurança e valorização, tanto em casa, como na escola.

Bibliografia
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CURY, Augusto. Filhos brilhantes, alunos fascinantes. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.
Dicionário online Michaelis UOL. Disponível em: michaelis.uol.com.br. Acesso em 20 de ago. de 2010.
FOLHA DE SÃO PAULO. Escola pública boa deve começar em casa. Rio de Janeiro, ago. 2004. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u15859.shtml. Acesso em: 21 jul. de 2010.
IHU on-line (Instituto Humanitas Unisinos). A escola pública brasileira: uma realidade dura – Entrevista com Roberto de Leão. Disponível em:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=23636. Acesso em: 02 ago. 2010.
Informe Publicitário. Em busca da alta performance in Guia da Educação, Revista Veja, edição 2139 (2009), pág. 12.
PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Tradução Ana maria Neto Machado. Porto Alegre: Artmed, 1985.
PEGO, Márcia Goulart Tozzi. Intervenção psicopedagógica e família. Disponível em:
www.psicopedagogia.com.br. Acesso em: 14 ago.de 2010.
PELT, Nancy Van. Como formar filhos vencedores – Desenvolvendo o caráter a personalidade. São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2006.
PILETTI, Nelson. Psicologia Educacional. 17ª Ed. São Paulo: Ática, 2009.
POLLATO, Amanda. Sem culpar o outro in Revista Nova Escola, São Paulo, nº 225, p. 102-106. set. 2009.
SILVA, Edna Lúcia da e Estera Muszkat MENEZES. Metodologia da pesquisa e elaboração de dissertação. 3ª ed. rev. atual. Florianópolis: Laboratório de Ensino à Distância da UFSC, 2001.
SISTO, Fermino Fernandes [et al]. Atuação psicopedagógica e aprendizagem escolar. 11ª ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2008.
STOEBER, Isa Spanghero e DE FELICE, Zuleica P. A psicopedagogia e a família. Disponível em:
www.psicopedagogia.com.br. Acesso em: 14 de ago. de 2010.
TIBA, Içami. Família de alta performance: conceitos contemporâneos da educação. São Paulo: Integrare, 2009.
WEISS, M. L. L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

domingo, 25 de setembro de 2011

As Crianças e seus Ideais

Nossa educação cultua desde cedo em nossas mentes, o ideal de ser alguém importante. Daí a idolatria aos grandes vultos históricos, antigos ou contemporâneos, que nos servem como exemplo de virtude, coragem e realização. São os chamados heróis que todos nós idealizamos ser um dia, seja por admiração pelos seus feitos, seja pela história de vida que sempre culmina em sucesso. Mesmo um herói que depois tenha fracassado, apenas sua história de sucesso chega ao nosso conhecimento, e imagine nossa frustração quando descobrimos depois, que nosso ídolo era na verdade uma fantasia. Toda sociedade não pode prescindir dos seus heróis, é o momento máximo no culto ao sucesso, o que acaba se tornando um objetivo para todos.
Assim é ensinado, o culto aos heróis. Desse modo, o herói se torna importante, e idealizamos ser igual a eles. Mas ao glorificarmos o herói e orientarmos nossos filhos e alunos para que os imitem, estamos também lhe pedindo para que renunciem o que são em favor da imitação de outrem. Quando desejamos copiar alguém nos tornamos hipócritas, pois estaremos sempre fingindo ser o que efetivamente não somos, representaremos papéis que se prestam apenas a agradar pessoas em troca de favores.
Ao ser comparado a outro, querendo ser alguém, a criança logo não se considera importante, não vê a si mesmo, assim como ele é, alguém digno de um futuro, não sente motivação alguma para investir em si, não terá confiança de que é capaz de ser alguém bem sucedido sem imitar alguém. Idealizará viver a vida de outros, de pessoas bem sucedidas, que se destacaram na vida; terá uma predestinação natural para seguir os exemplos que tanto glorificam nas escolas e nos meios de comunicação. Tentará como uma máquina capaz de repetir gestos, imitar seus gostos excêntricos, seu modo de vestir, sua forma de pensar, seu inteiro modo de viver, sem entender que aquelas celebridades, na grande maioria das vezes, publicamente apenas interpretam papéis de personagens que nunca foram ou serão, um jogo de cena para um público ávido pelas suas extravagâncias teatrais, que alimentará toda uma cadeia que faz da representação sua existência. Ao imitar um personagem, só restará a aquele jovem a frustração sem fim, já que tentará ser aquilo que não é, imitando alguém que não existe.
Mostrar uma mentira, um mundo que não existe de fato, criar uma falsa expectativa em nossos filhos, uma certeza de frustração quando descobrirem o que é real, podemos considerar isso educação correta? Mas é o modelo vigente dentro dos nossos padrões de sociedade, o modelo que adotamos e repassamos para eles.
Um ideal é um desejo que se opõe à realidade de alguma coisa. Desse modo, se sou medroso, posso ter como ideal ser corajoso. Todas as nossas frustrações são produtos de ideais não concretizados. É sempre a mesma coisa, diante de um processo de escolha, estamos em permanente conflito. Se preciso escolher é por que não tenho certeza, e acabo escolhendo aquilo que, naquele momento, se mostra mais favorável para mim, o que representa uma condição cruel, pois sei que as coisas mudam de rumo a todo instante, e logo minha escolha pode revelar-se como não mais adequada. É um risco que me angustia, pois mesmo que ela se mostre viável por um tempo, com o passar desse tempo, a outra opção de alguma forma se mostrará como também adequada, e eis o problema, talvez mais adequada que aquela inicialmente escolhida. Isso ocorre porque ao escolhermos diante de duas ou mais opções, é porque todas elas se mostraram viáveis diante de nossa análise, e esgotada uma delas, logo desejamos também explorar a outra, ou outras.
Diante de uma realidade, logo mentalizamos seu oposto, é como funciona todo um processo de escolha, pois toda escolha representa um ideal que queremos alcançar. Sendo um aluno medíocre, logo nos comparamos com o melhor da turma, e meu ideal é ser o melhor. Desse modo, nossos objetivos se tornam nossas fugas à realidade da coisa, e uma fuga é sempre seu oposto. Se tenho medo devo ser corajoso, se estou com frio procuro me aquecer, se sou pobre quero me tornar rico, se já sou rico não desejo ser pobre. O ideal do medroso é ser corajoso, do pobre é ser rico, do friorento é estar aquecido, do rico é não ficar pobre, sempre o oposto, um objetivo, uma fuga à realidade. Mas um oposto é por natureza o contrário de qualquer coisa, e caracteriza para sempre nossa insatisfação com nossas escolhas, nossa eterna contradição, e escolhemos porque nunca estamos certos de nada em nossas vidas.
"O ideal de cada um, é uma realidade que não nos agrada...”
Nanny Lopes

Coisas Simples que ajudam Seus Filhos a Aprenderem



São coisas tão simples que podemos imaginar se o efeito será de fato compensador.
Mas, o segredo de todas as coisas está na simplicidade. Existe coisa mais simples do que o ato de respirar? E, no entanto é isso que nos mantém vivos, e nada fizemos para aprender como faze-lo! Então...


O caminho para ser bem sucedido na Escola começa logo cedo.
Boa saúde, bons relacionamentos, e oportunidades para aprender tudo, ajudam a criança a preparar a base para ser bem sucedida na vida. Mas, muitos Pais se perguntam: "Como faço para dar estas coisas tão essenciais a meu Filho?”.


Pais e encarregados de cuidar das crianças, são pessoas muito ocupados. Cheios de responsabilidades; Emprego fora de casa, roupa para lavar, casa para cuidar, etc. No entanto, por mais ocupados que possam ser, eis aqui um monte de coisas que podem fazer, sem atrapalhar seus afazeres corriqueiros, e que vai auxiliar suas crianças pequenas a se prepararem melhor para enfrentar a Escola.
Como as pessoas não estão dispostas a deixarem sua rotina diária de lado para se dedicarem as suas crianças, segue algumas sugestões. São Pequenas coisas que tem um grande efeito. A maioria dessas coisas custa pouco ou nada e podem ser feitas sem alterar o ritmo de sua rotina diária.
15 Coisas Simples que qualquer Pai ou responsável pode fazer para ajudar seus filhos a aprenderem mais
1.      Escute-os e preste mais atenção aos seus problemas;
2.      Leia com eles;
3.      Conte-lhes histórias da família;
4.      Limite seu tempo de ver televisão;
5.      Tenha sempre livros e outros materiais de leitura espalhados pela casa;
6.      Ajude-os a encontrar "aquelas palavras" no dicionário;
7.      Motive-os a usar e consultar uma Enciclopédia;
8.      Compartilhe suas histórias, Poemas e Canções favoritas com eles;
9.      Leve-os à Biblioteca para que tenham seu próprio cartão de acesso aos livros;
10.   Leve-os aos Museus e Lugares Históricos, sempre que possível;
11.   Discuta as novidades do dia ou o que achar que mais interessante com eles;
12.   Explore as coisas junto com eles e aprenda sobre plantas, animais, história e geografia;
13.   Ache um lugar sossegado para eles estudarem;
14.   Faça sempre uma revisão nas suas tarefas de casa;
15.   Mantenha sempre contato com seus professores.

Fonte:
U.S. Department of Education/Helping Your Child Get Ready For School series

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Nove Maneiras de Ajudar Uma Criança a Aprender a Ler

Com hábitos simples que podem ser aplicados desde cedo em casa ou na escola, você pode resolver um dos maiores problemas entre os jovens: O Hábito da Leitura.

Nós temos o péssimo hábito de imaginar que apenas com o uso de técnicas complexas, realizadas por Pedagogos altamente qualificados ou outros especialistas, teremos resultados práticos na educação juvenil.



Veja como isso é falso, e como nossa preguiça tem um significado importante na formação dos nossos filhos.

A coisa mais simples e também a mais importante que os adultos podem fazer para ajudar as crianças na fase da Pré ou Alfabetização, a criarem o hábito de buscarem o conhecimento do qual elas irão precisar, para serem bem sucedidas na vida pessoal e profissional, é simplesmente ler alto para elas, começando com isto desde cedo.


A habilidade para ler e entender o que está escrito capacita as crianças a serem auto suficientes, a serem melhores estudantes, mais confiantes, levando-as desse modo às melhores oportunidades na vida profissional e a uma vida mais divertida, tranquila e agradável.


Veja a seguir, As Nove Pequenas Coisas que os Pais, Avós, Professores e outros parentes, dispostos a ajudar, podem fazer para auxiliar seus pequenos a aprenderem e a criar neles o gosto pela leitura.


1. Leia em Voz Alta, para seu filho diáriamente. Do nascimento até os seis meses, ele provávelmente não vai entender nada do que você está lendo, mas tudo bem assim mesmo.


A idéia é que ele fique familiarizado com o som de sua voz e se acostume a ver e a tocar em Livros.


2. Para começar, use Livros Ilustrados sem textos ou com bem poucas palavras. Aponte para as cores e figuras e diga seus nomes. Livros simples podem ensinar a criança coisas que mais tarde vão ajudá-la a aprender a ler.


Por exemplo, ela aprenderá sobre a estrutura da linguagem - que existem espaços entre as palavras e que a escrita vai da esquerda para a direita.


3. Conte Histórias. Encoraje sua criança a fazer perguntas e a falar sobre a história que acabou de ouvir. Pergunte-lhe se pode adivinhar o que vai acontecer em seguida conforme for contando a história, com os personagens ou coisas da trama. Aponte para as coisas no livro que ela possa associar com o seu dia a dia. "Veja este desenho de macaco. Você lembra do macaco que vimos no Circo?"


4. Procure por Programas de Leitura. Se você não for um bom leitor, programas voluntários ou governamentais, na sua comunidade ou cidade, voltados para o desenvolvimento da leitura, lhe darão a oportunidade de melhorar sua própria leitura ou então ler para seu filho. Amigos e parentes podem também ler para seu filho, e também pessoas voluntárias que na maioria dos centros comunitários ou outras instituições estão disponíveis e gostam de fazer isso.


5. Compre um Dicionário Infantil. Procure por um que tenha figuras ao lado das palavras. Então começe a desenvolver o hábito de brincando com a criança, provocá-la dizendo frases tais como: "Vamos descobrir o que isto significa?"


6. Faça com que Materiais de Escrever, tais como lápis, giz de cera, lápis coloridos, canetas, etc, estejam sempre disponíveis e a vista de todos.


7. Procure assistir programas Educativos na TV e Vídeo. Programas infantis onde a criança possa se divertir, aprender o alfabeto e os sons de cada letra.


8. Visite com frequencia uma Biblioteca. Começe fazendo visitas semanais à biblioteca ou livraria quando seu filho for ainda muito pequeno. Se possível cuide para que ele tenha seu próprio cartão de acesso e empréstimo de livros da biblioteca. Muitas bibliotecas permitem que crianças tenham seus próprios cartões personalizados com seu nome impresso, caso ela queira, exigindo apenas que um adulto seja o responsável e assine por ela.


9. Leia você mesmo. O que você faz serve de exemplo para o seu filho.




Fonte:
U.S. Department of Education/Helping Your Child Get Ready For School series

A importância do brincar na construção do conhecimento

Em se tratando de Psicologia Educacional, pode-se dizer que a mesma surge no âmbito do desconforto, onde professores, pais, diretores e a escola em si sentem-se desamparados frente ao número crescente de crianças impossibilitadas de participar do processo de evolução da aprendizagem. Tal desconforto é real, pois a impossibilidade frente ao saber desencadeia na criança outros processos que dificultam o andamento escolar. As crianças, desde então, são rotuladas a partir de comportamentos que podem se associar aos distúrbios da aprendizagem: agressivas, apáticas, desinteressadas, desatentas, desorganizadas, etc. Desse modo, intervenções que possibilitem a integração da criança ao mundo do saber tornam-se extremamente necessárias.
     A melhor forma é através do lúdico, do jogo, do brincar. Sabe-se que o ser humano tem recebido muitas designações: Homo Sapiens porque possui como função o raciocínio para apreender e conhecer o mundo; Homo Faber porque fabrica objetos e utensílios, e Homo Ludens porque é capaz de dedicar-se às atividades lúdicas, melhor dizendo, ao jogo.
     Pode-se dizer que o ato de jogar é tão antigo quanto o próprio homem, pois este sempre demonstrou um impulso para o jogo. Jogar é uma atividade natural do ser humano. Através do jogo e do brinquedo, o mesmo reproduz e recria o meio circundante. Assim, é correto dizer que a brincadeira simbólica fornece à criança a possibilidade de ir ao outro, viver suas respectivas experiências e voltar novamente ao seu próprio mundo. A criança, ao brincar, desenvolve sua capacidade de refletir sobre os fatos reais de formas cada vez mais abstratas, bem como constrói sua realidade, tanto pessoal quanto social. Brincando, a criança conscientiza-se de si mesma como ser agente e criativo. A relação do brincar produz e reproduz emoções, possibilitando nomear e organizar um mundo de caos para um mundo de descobertas, facilitando a abertura para o campo cognitivo.
     Baseando-se na pedagogia, pode-se dizer ainda que o brincar é a forma mais fácil e real para se estabelecer relações afetivas com a criança, transmitindo-lhe segurança e confiança para que a sua introdução no processo de escolarização seja saudável e prazerosa, sem sofrimentos e culpas. Através do brincar e das gratificações efetivas que acompanham esta atividade, a criança dá vazão à sua ânsia de conhecer e descobrir.
     Enquanto brinca, a criança está consciente de que está representando um objeto, situação ou fato, mas, ao mesmo tempo, está inconsciente de que esteja representando algo que lhe escapa por estar fora do campo de sua consciência no momento. A brincadeira simbólica, como as demais manifestações simbólicas, daria à criança condições de aprender a lidar com suas emoções e afetos.
     Através da observação das brincadeiras das crianças, constata-se realmente que a cada abertura ao meio corresponde um movimento complementar de interiorização, evidenciando-se a organização interna da ação. 
       A brincadeira simbólica vem sendo utilizada na área clínica, principalmente pela escola psicanalítica, há vários anos. No trabalho de consultório, quer em psicologia clínica, quer em psicopedagogia, muitas crianças são atendidas através do lúdico. “O brincar se dá no espaço potencial e é sempre uma experiência criativa, na continuidade espaço-tempo, uma forma básica de viver” (WINNICOTT, 1993, p. 45).
     Sobre a brincadeira, mais especificamente a que ocorre na fase operacional concreta, há de se considerar também que, entre os sete e os onze/doze anos, verifica-se uma coordenação cada vez mais estreita de papéis e um aumento da socialização, que se desenvolve e subsiste durante toda a vida. Por volta dos seis/sete anos, aumenta-se novamente a atividade física da criança, o corpo encontra-se em modificação, daí a necessidade de construir um novo esquema corporal. Agora a criança tem um bom equilíbrio e muita facilidade para aprender a pular de um pé, pular corda, andar de bicicleta e para jogos com regras, mas ainda é, às vezes, difícil aceitar as regras e todas só querem ganhar. A criança observa e controla os outros membros do grupo para verificar se estão seguindo adequadamente as regras. A violação das regras gera grandes discussões. O fato de perder torna-se intolerável para algumas crianças, dando origem a cenas de choro e até mesmo de agressão. Nessa fase, abandona-se o egocentrismo em proveito da aplicação efetiva de regras e do espírito de cooperação dos jogadores. Observa-se que existe uma evolução do brincar de um estado mais egocêntrico até a socialização. Aqui, constata-se que o jogo inicialmente egocêntrico e espontâneo torna-se cada vez mais socializado.
     Ao abordar a brincadeira de forma histórica, pode-se ressaltar que o conteúdo social da mesma tem mudado através do tempo. Porém, a sua essência raramente se altera. Dentro de cada faixa etária, o jogo da criança responde sempre às mesmas características lúdicas. Ao brincar e jogar, a criança fica tão envolvida com o que está fazendo que coloca na ação seu sentimento e emoção. A brincadeira na fase operacional concreta é um elo integrador entre os aspectos motores, cognitivos, afetivos e sociais. Brincando e jogando, a criança ordena o mundo à sua volta, assimilando experiências e informações, incorporando atividades e valores. A atividade lúdica revela-se como instrumento facilitador da aprendizagem, possuindo valor educacional intrínseco, criando condições para que a criança explore seus movimentos, manipule materiais, interaja com seus companheiros e resolva situações-problema.
     O brincar pode ser visto como um recurso mediador no processo de ensino-aprendizagem, tornando-o mais fácil. O brincar enriquece a dinâmica das relações sociais na sala de aula. Possibilita um fortalecimento da relação entre o ser que ensina e o ser que aprende.
     As brincadeiras fazem parte do patrimônio lúdico-cultural, traduzindo valores, costumes, forma de pensamentos e aprendizagem. Os jogos e as brincadeiras fornecem à criança de sete a dez anos a possibilidade de ser um sujeito ativo, construtor do seu próprio conhecimento, alcançando progressivos graus de autonomia frente às estimulações do seu ambiente.
      A intervenção do professor é necessária e conveniente no processo de ensino-aprendizagem, além da interação social ser indispensável para o desenvolvimento do pensamento. As incitações do professor ajudam as crianças na reflexão sobre suas próprias ações. Juntos e com afeto, aluno e professor podem transformar o conhecimento em um processo contínuo de construção. Cabe ao professor criar situações adequadas para provocar curiosidade na criança e estimular a construção de seu conhecimento. Pode-se perceber nesse momento, a importância de se proporcionar à criança de sete a dez anos a vivência de situações concretas com jogos diversos e múltiplas atividades que favoreçam a construção de um ambiente alfabetizador. A tarefa essencial do educador deve estar voltada para seduzir o aluno, para que ele deseje e, desejando, aprenda.  Os jogos também contribuem para o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático. Através deles, criam-se situações de aprendizagem para a criança. “O ensino da matemática fundir-se-á à aprendizagem natural, espontânea e prazerosa que as crianças experimentam desde o nascer” (FAGALI E DEL RIO DO VALE, 1993, p. 15). Os jogos desafiam o pensamento da criança, provocando desequilíbrio, proporcionando descobertas e invenções, não a memorização mecânica.
      Na aula modelada pelo método tradicional, o professor tem a palavra como poder e a autoridade como reforço e condutor do conhecimento. Saber e poder juntam-se para dar-lhe segurança. Não obstante, o brincar ganha espaço na aula modelada pela criatividade, espontaneidade e desafio do pensamento da criança. Em tal aula, busca-se criar um ambiente estimulador, envolto num clima de respeito mútuo, no qual o professor procura ajudar o seu aluno a estruturar sua personalidade, autonomia, auto-estima, iniciativa própria e conhecimentos. É colocado por Piaget (1984) que aprender, realmente, é um processo de investigação pessoal em que se formulam hipóteses como faz um pesquisador, o qual tem inspirações, engana-se, avança e recua, sofre e se alegra sucessivamente. As verdadeiras aprendizagens não se fazem copiando do quadro ou prestando atenção ao professor. A audácia de abandonar as cartilhas e confrontar os alunos com a riqueza do contato simultâneo com todas as letras, qualquer palavra, frases e textos, é que, de forma significativa, tem revertido os insucessos em muitas salas de aulas.
      Todavia, o brincar, muitas vezes, acrescenta ao currículo escolar uma maior vivacidade de situações que ampliam as possibilidades de a criança aprender e construir o conhecimento. O brincar permite que o aprendiz tenha mais liberdade de pensar e de criar para desenvolver-se plenamente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FAGALI, Eloísa Quadros; DEL RIO DO VALE, Zélia. Psicopedagogia Institucional aplicada: A aprendizagem Escolar Dinâmica e Construção na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 1993. 
PIAGET, Jean. Para Onde Vai a Educação? Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: IMAGO, 1993.

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